Eficiência operacional no SUS: como ofertar mais atendimentos sem ampliar a capacidade física da rede

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O Sistema Único de Saúde vive um momento delicado em sua história. Desde que iniciou suas atividades em 1988, o SUS passou a englobar um grande número de unidades de saúde que são fomentadas com as verbas oriundas da União, Estados e Municípios, com o objetivo de fornecer atendimento à toda população brasileira.

Nos dias de hoje – apesar de não ser nenhuma novidade – hospitais, hemocentros, postos de saúde e laboratórios públicos sofrem com a diminuição do repasse dos recursos, algo que é fruto da economia claudicante que o país enfrenta desde meados de 2015.

A redução do produto interno bruto nacional e os altos índices inflacionários resultaram na instabilidade econômica e política vivida pelo Brasil, o que culminou na troca de chefia na esfera executiva e dos comandos ministeriais.

O atual governo brasileiro, liderado por Michel Temer, lançou em 2015 um documento chamado “Ponte para o futuro”, cujo texto passou a balizar algumas das propostas de reforma orçamentária para os próximos dois anos.

Dentre as áreas que sofrerão mudanças significativas encontra-se a saúde. De acordo com o documento, está previsto o fim da vinculação constitucional dos gastos com saúde e educação. A premissa é que o orçamento no Brasil não é impositivo, e que, por isso, o Poder executivo não é obrigado executar a despesa orçada.

Esta mudança coloca em cheque o repasse mínimo das esferas estaduais e municipais, algo estabelecido pela Emenda Constitucional 29. Os efeitos dessa mudança ainda são obscuros, mas são fruto da perspectiva que o novo Governo pretende dar ao dinheiro público nas mais diferentes searas.  

Em meio ao momento turbulento que vive o país, o SUS segue operando às duras penas sem saber qual será o futuro de sua gestão, tanto na área técnica quanto monetária. Alguns estados vivem momentos de catástrofe financeira e de falta de recursos para suprir estoques de medicamentos, pagar profissionais e custear as operações de unidades de saúde, como é o caso do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Mediante o estado de contenção de gastos e preocupação constante com a qualidade dos serviços, os gestores de unidades públicas de saúde se questionam como ofertar mais atendimentos sem que isso necessite da ampliação da capacidade física da rede, ou seja, fazer mais com menos.

Neste post iremos abordar pontos que tangenciam este enorme desafio e como podem ser aplicadas melhorias na gestão e na operação com o intuito de obter um crescimento no atendimento sem contar com o crescimento da rede.

Eficiência operacional no SUS: a chave para driblar a falta de investimento

Sem recursos para ampliar a capacidade de atendimento, cabe aos gestores uma saída estratégica e eficiente: melhorar suas operações. Existem diversas maneiras de ampliar a eficiência operacional de uma unidade pública de saúde, sendo que boa parte delas passam por melhorias em sua gestão. No papel de um gestor de unidade de saúde pública, cabe ao profissional traçar estratégias que otimizem os serviços. Veja alguns exemplos.

Fluxo de pacientes

Filas que não param de crescer e pessoas que passam um dia inteiro na sala de espera são algumas cenas clássicas em unidades do SUS. Este cenário é resultado de um conjunto de problemas, dentre eles o fluxo de pacientes.

O tempo que o paciente passa dentro da unidade deve ser o menor possível. Isso não significa que o atendimento deve ser impessoal ou apressado, mas sim melhorado desde o início. Tudo deve começar na triagem e nos processos burocráticos.

Os profissionais dessas áreas devem receber o devido treinamento para assistir os pacientes da melhor forma, algo que inclui a rapidez. Ao chegar em uma unidade de saúde, muitos pacientes se deparam com profissionais que sofrem para executar tarefas básicas como preenchimento de cadastro, operação do sistema e liberação de senhas. Processos simples que, devido a profissionais obsoletos e com falta de treinamento específico, são executados em um período de tempo muito superior ao que deveriam – e nem sempre estão corretos.

Alguns hospitais tem tratado esses problemas com muita eficiência através do uso do sistema Lean de gestão. O sistema, inicialmente desenvolvido para a indústria automobilística, rapidamente ganhou espaço nos mais diversos setores.

Isso aconteceu pelo fato do sistema ser um impulsionador em eficiência e na construção de processos mais ágeis e simples, que melhoram a produtividade e o controle sobre as tarefas. Você pode entender mais sobre o sistema LEAN no nosso artigo.

Informações e campanhas educativas

Unidades de saúde muitas vezes sofrem com algo que acomete qualquer tipo de hospital ou clínica: pacientes que não precisam de atendimento hospitalar. Mesmo sendo uma das premissas do SUS, é fato que existem pessoas que vão ao hospital sem necessidade. São casos e casos de pessoas que poderiam buscar atendimento em ambulatórios ao invés de ir ao hospital ou até mesmo realizar um tratamento caseiro.

Para este tipo de problema não existe solução que não seja a realização de políticas públicas e campanhas de conscientização da população sobre o uso racional dos serviços de saúde pública.  Este tipo de ação pode ser realizada em parceria com os governos municipais e estaduais.

Planejamento de serviços

Muitas unidades de saúde sofrem pelo fato de que não há um planejamento adequado para serviços complexos, como mamografias, tomografias, endoscopia e cirurgias. O resultado de uma agenda cheia de buracos e “overbookings” (ou reservar além do permitido) são os gargalos nos processos e a lentidão no atendimento.

Para ampliá-lo é necessário que haja um controle estratégico dos agendamentos e parcerias sistematizadas com outras instituições que dispõem dos recursos que o paciente necessita. Este tipo de solução pode ser feita através do uso de softwares de gestão ou com o treinamento e capacitação dos funcionários responsáveis pela programação das atividades.

Padronização de processos

Nos dois itens anteriores, citamos algo que é impossível sem este terceiro ponto. A padronização dos processos garante que toda a instituição trabalhe da mesma maneira.

Processos podem ser padronizados através da adoção de ferramentas e técnicas que façam com que um determinado procedimento seja feito da mesma maneira em toda a instituição e por todos os profissionais.

Um exemplo é a utilização de fluxogramas na internação de um paciente. Este documento acompanha o paciente desde sua entrada até a liberação, fazendo com que ele seja um guia para cada etapa do tratamento.

Clique aqui e veja um material exclusivo sobre padronização de processos na área da saúde.

Padronização de processos é palavra de ordem em qualquer empresa que pretende atingir melhores resultados, e no setor de saúde não é diferente. É preciso se atentar às formas de trabalhar e criar padrões que sejam seguidos em toda a instituição.

Uso de sistemas eletrônicos/softwares

A tecnologia tem um papel cada vez mais importante em nossa saúde, proporcionando vidas mais longas e saudáveis. De robôs cirurgiões a hospitais inteligentes, a Transformação Digital tem revolucionado o cuidado ao paciente de maneiras inimagináveis. Isso porque ela não traz apenas tecnologia e agilidade.

A transformação digital é sobre como a disrupção tecnológica pode nos trazer eficiência e qualidade no trabalho. E não é apenas isso. É previsto que a revolução digital irá salvar até 300 bilhões de dólares gastos no setor, principalmente na área de doenças crônicas.

No Brasil esse processo já tem demonstrado seus primeiros passos, principalmente através da digitalização da gestão. Softwares que dispensam o uso de papel, centralizam todas as informações e trazem agilidade para tomada de decisões dos gestores dentro do hospital.

Um exemplo prático disso são os prontuários eletrônicos. Esses softwares são capazes de guardar todas as informações do paciente, desde o seu nascimento. Isso pode facilitar os procedimentos e a análise da situação do paciente por parte do médico, trazendo mais organização e reduzindo erros causados pela perda de documentos ou falhas de comunicação.

Tais ferramentas se tornaram uma obrigatoriedade do governo , que pretende implantar o software em todas as unidades básicas de saúde até 2018. Apesar das vantagens que esses softwares oferecem, ainda existe uma certa resistência por parte de gestores para aderência. Na grande parte, essa resistência se dá pelo alto custo de aquisição dessas tecnologias ou a falta de integração com outros sistemas. No entanto, esse pensamento não é inteiramente correto.

Atualmente no mercado existem inúmeras opções com um ótimo custo benefício. Outro fator que precisa ser levado em conta é o ganho em velocidade, segurança e produtividade do hospital, ao evitar perda de informações, por exemplo.

Parcerias público-privadas

O uso de parcerias público-privadas também pode trazer mais eficiência para dentro do hospital. Serviços que demandam muito tempo da equipe ou dinheiro do hospital podem ser repassados para instituições privadas. Essa atitude melhora os processos de gestão clínica, de monitoramento e avaliação.

Empresas podem ingressar no hospital através de diversos canais, como serviços não clínicos (como manutenção e limpeza), atenção básica (ou APS), apoio ao diagnóstico, serviços especializados (como UTIS e Telemedicina) e até mesmo a própria gestão hospitalar.

Conclusões

Diante dos desafios impostos pela situação atual do SUS fica claro que não há maneiras de resolver o problema dos gargalos sem treinamento de pessoal e melhorias na gestão estratégica das unidades.

No papel de gestor de uma unidade, é preciso buscar soluções, e elas passam pelo engrandecimento da bagagem intelectual dos colaboradores e pela padronização dos processos.

Outro ponto fundamental para ampliar a qualidade e rapidez dos serviços é analisar profundamente a forma como os processos são realizados e olhar com cuidado para a forma como é feita a relação com os pacientes.

Perante a desaceleração dos investimentos em saúde, não serão poucas as adversidades que surgirão na gestão da saúde pública. É preciso utilizar de muita estratégia – e poucos gastos – para obter resultados expressivos e a tão sonhada ampliação do atendimento sem a necessidade de crescimento da rede.

Acesse nossa central de conteúdos para ampliar seus conhecimentos sobre gestão de unidades hospitalares e aproveite também para conhecer nossas soluções para UTIs. Ao final do texto, não se esqueça de deixar o seu comentário para fomentar a discussão envolvendo os desafios de gestão da saúde pública no Brasil.

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